[ABAC ENTREVISTA] Sachsida fala sobre crédito, produtividade e estabilidade

23 . jun . 2026

Em meio aos debates sobre juros elevados, produtividade, mercado de crédito e planejamento econômico, Adolfo Sachsida avalia os principais desafios para a retomada do crescimento sustentável do Brasil e defende a necessidade de reformas estruturais para ampliar a segurança jurídica e estimular investimentos de longo prazo. 

Em entrevista para a Revista Sistema de Consórcios, durante o 46º CONAC, Sachsida demonstra uma visão otimista sobre o futuro do país ao afirmar que ele reúne condições para acelerar o crescimento e atrair novos investimentos. “O mundo todo está esperando para trazer dinheiro para o Brasil. Vários empresários brasileiros só querem isso: segurança para investir”, destaca. 

O doutor em Economia, advogado, professor e ex-ministro de Minas e Energia também aborda temas como inflação, educação financeira, burocracia, desenvolvimento econômico e o potencial de expansão do Sistema de Consórcios em um cenário de maior previsibilidade.

ABAC Entrevista: Adolfo Sachsida

Utilize o player abaixo para assistir a entrevista completa ou clique aqui.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com Adolfo Sachsida:

Quais são os principais desafios para a retomada de um crescimento mais consistente do país? 

Nós temos que separar os problemas em dois tipos: o urgente e o importante. O desafio urgente é a situação fiscal. Nós temos que endereçar esse problema. Agora, o importante é que nós precisamos crescer, e crescer demanda produtividade. Então, eu acredito que o grande momento do Brasil é você aliar essas duas exigências. Consolidar o lado fiscal da economia e aprovar reformas microeconômicas para aumento de produtividade, emprego e renda do país.

Apesar desse cenário mais restritivo, alguns setores seguem apresentando resultados positivos. Onde estão as principais oportunidades para a economia brasileira?

A economia brasileira tem excelentes oportunidades. Por exemplo, o agronegócio está mostrando que o Brasil é o celeiro do mundo, um porto seguro de alimentação para o mundo inteiro. Certamente petróleo e gás também é uma área extremamente importante. Tem também a questão da mineração, dos minerais críticos, terras raras e transição energética, mas eu gostaria de ressaltar o mercado de crédito, que está em torno de 53% em relação ao PIB. Em países do padrão brasileiro, esse número está acima de 80%. Então, quando a gente olha mercados como o de consórcio, o de crédito e seguro, eles reúnem condições para ter um crescimento sustentável muito forte nos próximos anos.

Qual o entrave para essa expansão do mercado de crédito?

Precisamos olhar para um sintoma que nós temos. E qual é o sintoma? Os juros no Brasil são muito altos. Com a Selic em 14,5%, isso quer dizer o seguinte: o consumidor final pega acima de 20% ao ano. É uma taxa muito pesada para qualquer país do mundo. Então isso é um sintoma muito grave. E são duas as causas do problema.  Primeiro: a situação fiscal do país inspira cuidados. Então, como o governo gasta muito, ele tira muito dinheiro da economia. E, quando isso acontece, joga os juros para cima. Com muita prudência e serenidade, precisamos de um processo de consolidação fiscal.

Outra coisa é que temos marcos legais inadequados para crédito. Hoje, ao emprestar dinheiro, a expectativa é receber 0,13 centavos a cada dólar, caso o consumidor fique inadimplente.  No Japão, esse número é acima de 90. Nos Estados Unidos, acima de 80. A média mundial é 36. Ou seja, no Brasil você tem muito risco associado a emprestar. Então é necessário melhorar esses instrumentos para dar segurança jurídica para todo o sistema. Eu acho que isso vai ter resultados muito bons no mercado de crédito.

Muito se fala sobre a confiança como elemento fundamental para o desenvolvimento econômico. O que o Brasil precisa fazer para ampliar a previsibilidade e estimular investimentos de longo prazo?

Nós precisamos melhorar os marcos legais da economia brasileira. Como eu acabei de dizer, o mercado de crédito é fantástico. É ele que permite ao pequeno empresário se alavancar para começar o seu negócio. Agora, quando a taxa de juros é 20%, que é o que chega para ele, fica muito difícil.

E como melhorar esse mercado? Dando segurança jurídica. Por exemplo, quando um banco empresta um recurso, ele precisa de um razoável grau de certeza de que vai receber aquele dinheiro de volta. E aqui no Brasil a legislação cria vários impedimentos para isso, gerando insegurança jurídica ao tomador do empréstimo. E o que isso faz? O preço aumenta.

Isso também acontece em outros segmentos?

Sim. Suponha que você encontre ouro. Entre o achado e começar o processo de mineração industrial levam 14 anos. Como atrair investimentos assim? Agora um exemplo mais ligado ao dia a dia, imaginemos que uma grande varejista vai montar uma loja na sua cidade. Na maior parte das cidades brasileiras, entre a decisão de abrir a unidade e o início da construção, leva mais de sete anos. E por quê? Pela burocracia associada à instalação de grandes empresas. 

Às vezes parece que o Brasil adota um conjunto de legislações sem se importar com esse tipo de custo. Isso não está correto. Nós precisamos gerar emprego, gerar renda. O brasileiro quer crescer. Ele quer ter direito a uma vida melhor. E nossa legislação tem que ajudar nisso, e obrigar um empresário a levar sete anos em processo burocrático para conseguir uma licença para gerar 500 empregos numa cidade.

Aliada ao cenário de juros altos, a burocracia acaba estimulando mais o rentismo do que o investimento?

Aí eu pergunto para você: imagina que tenha aí na sua conta R$ 10 milhões. Você pode colocar isso no banco e receber facilmente 1% ao mês. Ou você prefere pegar seus R$ 10 milhões e começar a construir uma loja, um grande centro de distribuição logística numa cidade brasileira e, no meio do processo, descobrir que tem que parar tudo porque faltou um carimbo de uma subsecretaria do bairro tal?

É muito risco. Quando você coloca muito risco em empreendimentos, as pessoas ficam com medo. A boa notícia é que, se a gente destravar isso, o crescimento, o investimento e o emprego vão dar um pulo. O mundo todo está esperando para trazer dinheiro para o Brasil. Vários empresários brasileiros só querem isso: segurança para investir.

Então eu sou otimista. Com um governo pró-mercado, pró-trabalhador, que ajude as famílias brasileiras, dando a elas o direito de trabalhar, nós vamos ter um grande processo de crescimento econômico.

Como avalia os impactos do atual cenário econômico sobre o comportamento das famílias brasileiras em relação ao consumo e ao planejamento financeiro?

O brasileiro tem uma renda baixa, então qualquer choque externo mexe muito com a vida das famílias. O momento hoje é muito delicado porque a taxa de juros, no patamar em que está nos últimos quatro anos, endivida as famílias e as empresas brasileiras num patamar inédito em nossa história. Isso demanda cuidado.

O consumidor deveria se planejar melhor? Em termos, é verdade. Mas é claro que quem está ganhando dois salários mínimos não tem muita margem, qualquer ruído irá prejudicá-lo. Por isso é tão importante ter uma política econômica previsível, estável, que traga os juros para baixo, que gere emprego e renda para dar essa segurança às pessoas de classe média e baixa.

A educação financeira deveria ser pensada também no nível da educação, talvez pelo próprio Ministério da Educação?

Vários países do mundo têm adotado essa postura de levar educação financeira para a população. E eu acho extremamente importante porque ajuda o brasileiro a saber: “olha o juro composto”, “cuidado para não se endividar”. Agora, temos que entender a realidade brasileira. A realidade brasileira é a seguinte: hoje eu acordei, tomei café da manhã, me arrumei para essa palestra e daqui a pouco vou estar palestrando aqui no CONAC. Fato é que 33% dos brasileiros não conseguem ler essa frase. Essa é a realidade do Brasil.

Um a cada 20 brasileiros tem o nível de matemática que deveria ter ao final do ensino médio. Ou seja, 19 não alcançam o nível que deveriam atingir da matéria. Infelizmente, a educação brasileira está num momento que inspira muito cuidado.

É um quadro geral, para além da educação financeira?

Não é só a educação financeira. O brasileiro precisa urgentemente aprender a ler, escrever, interpretar textos e fazer contas matemáticas de maior complexidade. Se você pedir a um adulto para fazer uma regra de três, a chance de metade da população errar é alta. Aí eu te pergunto: está chegando inteligência artificial. Como é que nós vamos fazer? O desafio da educação básica é fundamental e certamente o próximo governo precisa prestar muito mais atenção na educação. Afinal, ela é uma chave de sucesso para o desenvolvimento econômico.

Historicamente, o brasileiro conviveu com instabilidades econômicas e mudanças de cenário muito rápidas. Isso alterou a forma como as pessoas lidam com o dinheiro e o patrimônio?

O brasileiro é um povo fantástico, trabalhador. Às vezes estou na praia e vejo uma pessoa de baixo de um sol de 40 graus vendendo biscoito Globo e carregando chá mate. Ou aquele cara do bombom carregando 40 quilos. É cidadão e trabalhador.

Você anda nas ruas brasileiras e vê homens, mulheres, idosos empurrando um carrinho cheio de papelão para ganhar dinheiro com reciclagem. Somos um povo empreendedor que superou crises terríveis, pois quando se olha a história do país é um amontoado de crises. Então um povo desses merece todo nosso respeito. Vamos trazer um pouco de estabilidade. Eu tenho certeza de que o empreendedorismo do brasileiro vai fazer valer e chegaremos a uma situação muito melhor.

Num ambiente de crédito mais caro, cresce a busca por alternativas de aquisição planejada. Como o senhor avalia o avanço de modelos baseados em planejamento financeiro e autofinanciamento?

Obviamente eu gosto da ideia, mas o que mais gosto é da liberdade de escolha. Precisamos devolver ao brasileiro essa liberdade de ele poder se planejar, de ele poder escolher as coisas. Quando você tem inflação alta, a capacidade de planejamento de quem é de baixa renda cai muito. Quando o cara é rico, a inflação sobe, ele coloca o dinheiro no banco e fica tranquilo.

Meu pai era caminhoneiro, depois virou gerente de empresa. No primeiro dia que ele recebia salário, todo mundo ia ao supermercado comprar o que dava, porque no dia seguinte ficava mais caro. Como é que vai planejar num ambiente desses?

Temos que combater duramente a inflação porque ela tira do brasileiro essa capacidade dele se planejar e tomar crédito. A inflação alta encarece os juros e prejudica toda a economia. 

O planejamento financeiro é muito bem-vindo e nós temos que devolver esse direito ao brasileiro. Quando isso for feito abaixando a inflação, consolidando o lado fiscal e, consequentemente reduzindo os juros, melhorando os marcos legais, teremos taxas em patamares de primeiro mundo e daremos ao brasileiro o direito de se planejar e tomar essas decisões da melhor maneira possível.

Quais são as alternativas ao uso da taxa básica de juros (Selic) como principal ferramenta de controle da inflação?

Na minha honesta opinião, a inflação é inerentemente um problema monetário. E há um problema de economia monetária que muitas vezes está sendo gerado por excesso de gasto do governo. Como ele está gastando demais, está retirando muitos recursos da economia. Ao fazer isso, os recursos disponíveis diminuem e cada unidade dele acaba ficando mais cara, aí os juros sobem. E como baixar a taxa de juros, em minha leitura? Por dois processos.

O primeiro é a consolidação fiscal, colocando as contas públicas e a casa em ordem. Assim vai sobrar mais dinheiro no mercado e os juros caem. O segundo é aprimorar a legislação do mercado de crédito, de capitais, de garantias, de consórcios e seguros. Com um melhor marco legal, o dinheiro consegue ter mais velocidade e melhor alocação. Isso naturalmente reduz os spreads e consequentemente a taxa de juros.

O Sistema de Consórcios tem registrado expansão mesmo num contexto econômico desafiador. Na sua visão, quais características ajudam a explicar a força desse modelo no Brasil?

Porque é um modelo que todo mundo conhece. Estou com 53 anos de idade e conheço consórcio desde que eu tinha 15. As pessoas conhecem e confiam. Quando você compara com as taxas de juros, acaba tendo custos mais baixos para determinados bens. Então é natural você confiar no consórcio. Vocês criaram uma reputação que foi conquistada atravessando planos econômicos duríssimos, honrando compromissos. E isso gera toda uma série de credibilidade. E, claro, aumentando emprego e renda, começa também a impulsionar isso. 

O que segura um pouco o consórcio hoje é que o endividamento está alto. Então nós temos que atuar nisso para tentar baixar um pouco o endividamento do brasileiro, que tem algumas dívidas muito caras, e dar espaço para ele poder ter dívidas com prazo mais longo com uma taxa de juros mais baixa, que me parece ser a ideia do consórcio.

Qual é a importância de estimular uma cultura de planejamento de médio e longo prazo entre consumidores e empresas?

A ideia de planejamento e desenvolvimento sustentável é uma visão de longo prazo que se sustenta por si mesma, ou seja, que não é um instrumento artificial de governo. Às vezes, o governo começa a gastar muito, a renda sobe e passa a impressão que está bem. Em seguida, acaba o dinheiro do governo e vai todo mundo lá para baixo.

Vejamos os exemplos dos anos 2015 e 2016. Quando acabou o dinheiro do governo, a economia brasileira enfrentou dois anos da pior recessão da nossa série histórica. Então, o elemento sustentável é você criar instrumentos via mercado para que o trabalhador, tomando sua decisão, e a empresa, tomando sua decisão, gerem emprego e renda para todo mundo. É óbvio que eu sou a favor desse modelo. E, no que depender de mim, sempre vou trabalhar para que alcancemos uma estabilidade econômica que propicie esse crescimento.

Para encerrar, diante de um cenário global ainda marcado por incertezas, qual mensagem o senhor deixaria para empresários, investidores e consumidores que buscam se preparar melhor para o futuro econômico do país?

Pode investir aqui. Falo diretamente para você, que passou pelas décadas de 80 e 90 no Brasil, pela pior crise econômica em 2015 e 2016. Você está preparado. O país só precisa de um pouco de estabilidade. Precisamos colocar as contas públicas em ordem, aprovar novos marcos legais, destravar a burocracia e diminuir a regulamentação. Assim esse país vai crescer. Anotem o que eu estou dizendo: um governo pró-mercado coloca a casa em ordem em um ano e meio. Pode investir no Brasil que vai dar certo.

————————————————————————————————

Confira abaixo outras edições do ABAC Entrevista:

Categoria(s):

Institucional

Tag(s):

, , , , , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba novidades





    ENVIE SUGESTÕES
    DE POSTAGENS